Portuguese Constitutional Court upholds Article 16(3) of Criminal Procedure Code as constitutional despite allowing single court trials.
Legislator summary
AI generatedThe Constitutional Court granted the Public Prosecutor's appeal against a lower court's declaration of unconstitutionality regarding Article 16(3) of the Criminal Procedure Code. The lower court had struck down the provision, which permits single courts to try cases where the prosecution requests a sentence under three years, arguing it violated the principle of the natural judge. The Court rejected this argument, reiterating that the norm does not infringe constitutional guarantees or the principle of legal action. Consequently, the lower court's decision was revoked, and the contested article was upheld as valid.
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AI generatedArt. 16(3) CPL; The provision allowing single courts to try cases with potential sentences under three years upon prosecution request does not violate the principle of the natural judge or other constitutional guarantees.
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ACÓRDÃO N° 147/90
ACÓRDÃO N.º 147/90
Processo n.º 34/90
2ª Secção
Relator: Conselheiro Alves Correia
Acordam na 2.ª Secção do Tribunal Constitucional:
I – Relatório
1. A Magistrada do Ministério Público junto do Tribunal Judicial do Funchal acusou A. pela prática de um crime de furto qualificado, previsto e punido pelos artigos 296.º e 297.º, n.º 2, alíneas c) e d), do Código Penal, o qual é punido com pena de prisão de 1 a 10 anos.
Não obstante a medida abstracta prevista para a pena determinar, em princípio, a competência do tribunal colectivo para o julgamento daquele crime, nos termos do artigo 14.º, n.º2, alínea b), do Código de Processo Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 78/87, de 17 de Fevereiro, a Magistrada do Ministério Público, no seu requerimento acusatório, considerando que o arguido é delinquente primário, que o valor do furto é diminuto, tendo já o arguido indemnizado o proprietário pelos danos causados, que aquele se mostra arrependido, se encontra desempregado e tem a seu cargo três filhos menores, consignou que o caso devia ser julgado pelo tribunal singular, tendo em conta a disposição do artigo l6.º, n.º3, do mesmo Código, na redacção do Decreto-Lei n.º 387-E/87, de 29 de Dezembro, que atribui ao tribunal singular competência para julgar os processos por crimes previstos no artigo 14.º, n.º2, quando o Ministério Público entender que não deve ser aplicada, em concreto, pena de prisão superior a três anos.
O Meritíssimo Juiz, porém, recusou a aplicação, no caso sub judicio, do artigo 16.º, n.º 3, do Código de Processo Penal, com fundamento em inconstitucionalidade, por violação dos artigos 205.º e 206.º da Constituição.
2. É deste despacho que vem interposto obrigatoriamente pelo Ministério Público o presente recurso, cujo objecto consiste, assim, na questão da constitucionalidade da norma constante do n.º 3 do artigo 16.º do Código de Processo Penal, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 78/87, de 17 de Fevereiro, na redacção que lhe foi dada pelo artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 387-E/87, de 29 de Dezembro.
Neste Tribunal, alegou o Exmo. Procurador-Geral Adjunto, concluindo que o preceito questionado não viola qualquer norma ou princípio constitucionais, pelo que deve conceder-se provimento ao recurso.
4. Cumpre decidir, com dispensa de vistos.
II – Fundamentos.
5. A questão da constitucionalidade da norma em apreço foi já objecto de detida análise por parte deste Tribunal, em vários Acórdãos, tirados por esta mesma secção (v.g. Acórdão n.º 393/89, in DR, II Série, de 14/9/1989; Acórdão n.º 435/89, in DR, II Série, de 21/9/1989; Acórdão n.º 465/89, in DR, II Série, de 30/01/1990; e Acórdão n.º 44/90 – ainda por publicar), tendo entendido, embora com votos discordantes que a norma do artigo 16.º, n.º 3, do Código de Processo Penal conjugada com o n.º 4 do mesmo preceito, não padece de qualquer inconstitucionalidade.
Designadamente, não viola o principio da reserva do juiz, nem o princípio da legalidade da acção penal, nem o principio das garantias de defesa, nem o principio da acusação, nem o princípio do juiz natural, nem o principio da igualdade, consagrados nos artigos 205.º, 206.º, 221.º, n.ºs 1 e 2, 32.º, n.ºs 1, 5 e 7, e 13.º da Constituição.
É essa conclusão que agora se reitera.
Os fundamentos de um tal entendimento foram expostos, por último, no Acórdão n.º 97/90 (ainda por publicar) – Acórdão de que está junta cópia aos autos – e para eles se remete neste momento.
III – Decisão;
Nestes termos, concede-se provimento ao recurso e, em consequência, revoga-se o despacho recorrido que deve ser reformado em conformidade com o aqui decidido sobre a questão da inconstitucionalidade.
Lisboa, 3 de Maio de 1990.
Fernando Alves Correia
Messias Bento
Bravo Serra
Luís Nunes de Almeida (vencido pelas razões constantes da declaração de voto que juntei ao Acórdão n.º 393/89).
Mário de Brito (vencido, nos termos da declaração de voto junta).
José Manuel Cardoso da Costa
DECLARAÇÃO DE VOTO
Dispõe o n.º 3 do artigo 16.º do Código de Processo Penal aprovado pelo Decreto-Lei n.º 78/87, de 17 de Fevereiro, na redacção que lhe foi dada pelo Decreto-Lei n.º 387-E/87, de 29 de Dezembro:
"Compete ainda ao tribunal singular julgar os processos por crimes previstos no artigo 14.º, n.º 2, mesmo em caso de concurso de infracções, quando o Ministério Público, na acusação, ou em requerimento, quando for superveniente o conhecimento do concurso, entender que não deve ser aplicada, em concreto, pena de prisão superior a três anos ou medida de segurança de internamento por mais do que esse tempo".
E o n.º 4 do mesmo artigo acrescenta:
"No caso previsto no número anterior, o tribunal não pode aplicar pena de prisão ou medida de internamento superior a três anos".
Em declarações de voto que fiz, v.g., nos acórdãos n.ºs 393/89, de 18 de Maio, e 435/89, de 15 de Junho (no Diário da República, II Série, de 14 e 21 de Setembro de 1989, respectivamente), sustentei que aquele n.º 3 é inconstitucional, por violação dos artigos 205.º e 206.º da Constituição da República Portuguesa, na medida em que permite ao Ministério Público decidir que "não deve ser aplicada, em concreto, pena de prisão superior a três anos ou medida de internamento por mais do que esse tempo" e consequentemente determinar que o julgamento do arguido seja feito pelo tribunal singular, em vez de o ser pelo tribunal colectivo ou pelo tribunal do júri.
Propendo hoje a considerar que tal norma ofende também as "garantias de defesa" que, em geral, o n.º 1 do artigo 32.º da Constituição impõe que o processo criminal deve assegurar. É certo que não ser aplicada ao arguido, em concreto, "pena de prisão superior a três anos ou medida de segurança de internamento por mais do que esse tempo" lhe é, em princípio, mais favorável. Simplesmente, mais importante do que o quantum da sanção é o se da condenação e concebe-se perfeitamente que, julgado por um tribunal que oferece mais garantias de defesa, como é o tribunal colectivo ou o tribunal do júri, e sujeito, portanto, abstractamente, a uma pena de prisão superior a três anos ou a uma medida de segurança de internamento superior a três anos, o arguido venha afinal a ser absolvido, quando, julgado pelo tribunal singular, poderia vir a ser condenado, embora em sanção não superior a três anos.
Mário de Brito