Constitutional Court confirms prior ruling due to binding force of its own abstract unconstitutionality declaration.
Legislator summary
AI generatedThe Constitutional Court dismissed the Public Prosecutor's appeal regarding the application of Resolution 5/88 in a work accident case. Although the Prosecutor argued that the resolution was already declared unconstitutional, the Court noted that its own prior decision (Acórdão 268/88) established a binding general force of law. Consequently, the Court ruled that it was legally bound to apply that previous declaration and could not re-evaluate the constitutionality of the norm.
Legislator headnote
AI generatedArt. 282.º n.º 1 da CRP; Art. 66.º da LTC: Decisions declaring norms unconstitutional possess general binding force, obligating the Constitutional Court to apply such declarations in all pending cases without re-examining the issue.
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ACÓRDÃO N° 342/89
ACÓRDÃO N.º 342/89
Processo n.º 511/88
1ª Secção
Relator: Conselheiro Raul Mateus
Acordam no Tribunal Constitucional:
1. Em autos de acidente de trabalho em que é sinistrado A., residente na …, .., Capelas, Ponta Delgada, e entidade responsável a Mútua dos Pescadores, Sociedade Mútua de Seguros, com sede em Lisboa, à Avenida da Torre de Belém, 29, por entender que a Resolução n.º 5/88 do Governo Regional dos Açores, publicada no Jornal Oficial da Região, I série, n.º 4, de 28/01/88, enfermava de ilegalidade e de inconstitucionalidade orgânica e formal, o Juiz do Tribunal do Trabalho de Ponta Delgada recusou a sua aplicação, e em consequência indeferiu promoção do Ministério Público em que este magistrado peticionava, em função daquela mesma resolução, que se procedesse à rectificação da actualização da pensão do sinistrado.
Inconformado com tal despacho, dele recorreu para o Tribunal Constitucional, e em termos limitados à questão de constitucionalidade, o Ministério Público que, em alegações apresentadas pelo Exmo. Procurador-Geral da República Adjunto, ofereceu as seguintes conclusões:
- Pelo Acórdão n.º 268/88, de 29/11/88, o Tribunal Constitucional declarou, com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade das normas da Resolução n.º 5/88;
- A limitação de efeitos dessa inconstitucionalidade, a que o Tribunal procedeu, ressalvou as "situações litigiosas", fórmula que abarca o caso dos presentes autos;
- Assim, encontra-se precludida a possibilidade de reapreciação da questão de constitucionalidade que constitui objecto do presente recurso, pelo que apenas resta aplicar ao caso concreto aquela declaração, confirmando-se, na parte impugnada, a decisão recorrida.
Não foram apresentadas contra-alegações.
Dispensaram-se os vistos.
2. Cumpriria agora ao Tribunal Constitucional conhecer da (in)constitucionalidade das normas da Resolução n.º 5/88.
3. Sucede, porém, que medio tempore o Tribunal Constitucional, através do Acórdão n.º 268/88 (publicado no Diário da República, I série, n.º 293, de 21/12/88), declarou a inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, de todas as normas da Resolução n.º 5/88, sendo certo ainda que a restrição de efeitos da inconstitucionalidade, restrição então decretada ao abrigo do disposto no artigo 282.º, n.º 4, da Constituição da República Portuguesa, não exclui a hipótese sub judice do campo de acção daquela declaração de inconstitucionalidade.
Sobre o sentido e alcance de decisões deste género, escreve Gomes Canotilho, Direito Constitucional, 4.ª edição, páginas 813 e 815, o seguinte:
"As decisões do Tribunal Constitucional que declarem, de forma abstracta, a inconstitucionalidade ou a ilegalidade, têm força obrigatória geral (cfr. artigo 282/1 da CRP e artigo 66.º da LTC). Costuma sintetizar-se o sentido desta fórmula recorrendo às ideias de vinculação geral (Bindungswirkung, na terminologia germânica) e de força de lei (Gestzeskraft): (1) vinculação geral, porque as sentenças do TC declarativas da inconstitucionalidade ou da ilegalidade vinculam todos os órgãos constitucionais, todos os tribunais e todas as autoridades administrativas; (ii) força de lei, porque as sentenças são obrigatórias (como as leis) para todas as pessoas físicas e colectivas (e não apenas para os poderes públicos) juridicamente afectadas, nos seus direitos e obrigações, pela norma declarada inconstitucional." (…) "Vinculação geral e força de lei significa também a vinculação do TC às suas próprias decisões. Em termos práticos, isso implica, sobretudo, vinculação do próprio TC à decisão de declaração [de inconstitucionalidade] de normas devendo decidir todos os recursos nele pendentes de acordo com essa declaração."
Desta sorte, e uma vez declarada a inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, de certa norma, já não é lícito ao Tribunal Constitucional voltar a reapreciar a questão da conformidade ou desconformidade de tal norma com a Constituição da República Portuguesa. Ele próprio se acha vinculado, e ad aeternum, por tal declaração, e nos casos que lhe forem surgindo, no domínio da fiscalização concreta de constitucionalidade, e em que tal questão se reacenda, mais não tem a fazer que proceder à aplicação pura e simples dessa mesma declaração.
E, sendo esta a situação no presente recurso, terá o Tribunal Constitucional que agir em conformidade.
4. Pelos motivos expostos, e fazendo aplicação da declaração de inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, das normas da Resolução n.º 5/88, constante do Acórdão n.º 268/88, decide-se confirmar a decisão recorrida.
Sem custas.
Lisboa, 12 de Abril de 1989
Raul Mateus
Martins da Fonseca
Vital Moreira
Antero Alves Monteiro Diniz
José Magalhães Godinho