Constitutional Court dismisses appeal regarding selective bonuses and tax law retroactivity.
Legislator summary
AI generatedThe Constitutional Court refused to examine the constitutionality of a labor tribunal's decision awarding Christmas bonuses selectively to some employees. The plaintiff argued this violated equality principles and challenged the retroactive tax law, but the court held it cannot review judicial decisions themselves. Consequently, the appeal was rejected on both the procedural ground of inadmissible review and the substantive ground regarding the tax law.
Legislator headnote
AI generatedArt. 280.° da CRP; The Constitutional Court may only review the constitutionality of legal norms applied or disregarded in judicial decisions, not the decisions themselves.
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Acórdão 75/87
ACÓRDÃO Nº 75/87
Processo: n.° 128/86.
1ª Secção
Relator: Conselheiro Vital Moreira.
1 — Relatório
1 — A recorre para o Tribunal Constitucional da decisão do Tribunal do Trabalho da Comarca de Lisboa que julgou improcedente a acção em que aquele pedia a condenação do Metropolitano de Lisboa, E. P., no pagamento de determinada quantia, correspondente não só aos descontos por este efectuados nas remunerações daquele, ao abrigo da Lei n.º 37/83, de 21 de Outubro (imposto extraordinário sobre rendimentos), mas também de uma «gratificação natalícia» que foi atribuída a alguns trabalhadores daquela empresa, sem incluir o recorrente.
Alega, por um lado, que a referida Lei n.° 37/83 é inconstitucional, por violação do princípio da não retroactividade da lei fiscal, princípio esse consignado (ao menos implicitamente) na lei fundamental. Por outro lado, argumenta que a recorrida, ao atribuir «gratificações natalícias» a alguns dos trabalhadores da empresa, com exclusão dos outros, ofendeu o princípio constitucional da igualdade de retribuição e da proibição de discriminações (CRP, artigo 60.°, n.° 1), pelo que a decisão recorrida, ao considerar lícita tal conduta, incorreu também numa «inconstitucionalidade material».
O recorrido não alegou.
Corridos os vistos, cumpre apreciar e decidir.
2 — Fundamentação
2.1 — Uma questão prévia
Das duas questões de constitucionalidade levantadas, uma há — a segunda — de que não pode conhecer-se.
Nela se questiona a constitucionalidade da própria decisão recorrida, na parte em que não julgou ilícita a conduta da recorrida, ao atribuir uma «gratificações natalícias» a apenas alguns dos seus trabalhadores, com exclusão dos demais (entre os quais o recorrente).
Ora, o TC não pode conhecer da suposta inconstitucionalidade de uma decisão judicial ela mesma, pois tal não cabe na sua competência. A competência do TC em matéria de fiscalização concreta da constitucionalidade só abrange as decisões dos tribunais que num certo processo se tenham recusado a aplicar normas por as considerarem inconstitucionais ou que tenham aplicado normas cuja inconstitucionalidade tenha sido suscitada no processo pelo recorrente. Tal é o regime que decorre claramente do artigo 280.° da CRP. As questões de constitucionalidade trazidas ao Tribunal só podem versar normas jurídicas: ou porque eram aplicáveis à causa e não foram aplicadas por motivo de inconstitucionalidade, ou porque foram aplicadas e não o deveriam ter sido por serem alegadamente inconstitucionais.
Só essas decisões judiciais é que são recorríveis para o TC em sede de fiscalização concreta de constitucionalidade, e só dessas pode o TC conhecer, julgando da constitucionalidade das normas em causa. A fiscalização da constitucionalidade destina-se às normas aplicadas (ou desaplicadas) nas decisões judiciais, mas não às decisões judiciais elas mesmas.
É certo que as decisões judiciais (tal como qualquer outro acto jurídico) também podem infringir directamente a Constituição, visto que esta é directamente aplicável (cf. artigo 18.°, n.° 1) e os tribunais lhe estão naturalmente submetidos. Todavia, ao contrário do que sucede noutros sistemas constitucionais, a CRP não previu a possibilidade de o TC controlar a constitucionalidade das próprias decisões dos demais tribunais fora de uma controvérsia sobre a conformidade constitucional de uma ou mais normas (cf. J. J. Gomes Canotilho e Vital Moreira, Constituição da República Portuguesa Anotada, 2.ª ed., vol. II, p. 479).
O recurso de constitucionalidade não pode, portanto, servir para atacar junto do TC uma decisão de um outro tribunal por esta ser alegadamente, em si mesma, contrária à Constituição. Os demais tribunais só podem ser censurados pelo TC quanto ao juízo que façam acerca da constitucionalidade de certa norma, mas não quanto à aplicação (ou desaplicação) directa que façam da Constituição.
A lógica da argumentação do recorrente é a seguinte:
1. ° As normas sobre direitos fundamentais são directamente aplicáveis e vinculam as entidades públicas e privadas (CRP, artigo 18.°, n.° 1);
2. ° Ao conferir a alguns trabalhadores uma «gratificação natalícia», a entidade recorrida ofendeu o direito constitucional ao salário igual para trabalho igual (artigo 60.°, n.° 1, da CRP), com o que praticou um «acto inconstitucional»;
3.° Ao decidir que tal acto não é ilícito, o tribunal recorrido incorreu na mesma ofensa à lei básica, pelo que a decisão é também «materialmente inconstitucional».
Sucede, porém, como já se deixou dito, que nem tudo o que é eventualmente inconstitucional está sujeito aos meios próprios da fiscalização da constitucionalidade. Só a constitucionalidade de normas é que cabe ao TC apreciar; a «constitucionalidade» de actos jurídico-privados só pode apreciar-se através dos meios próprios do controlo da sua legalidade ou licitude, nos termos gerais, e a «constitucionalidade» das decisões judiciais elas mesmas só pode apreciar-se através das vias de recurso para outro tribunal que, na respectiva ordem judicial, eventualmente caibam ao caso concreto. A aplicação (boa ou má) que o tribunal recorrido tenha feito das normas constitucionais não é mais recorrível para o TC do que a aplicação (boa ou má) que ele tenha feito de qualquer outra norma jurídica. A aplicação que os tribunais façam da Constituição só é susceptível de reapreciação pelo TC quando aquela verse a aplicação (ou desaplicação) de outra norma (que não a própria norma constitucional).
Ao decidir como decidiu, o tribunal recorrido entendeu que a conduta que o recorrente queria ver censurada — a saber, a atribuição selectiva das tais gratificações natalícias — não ofendia nem a Constituição nem nenhuma norma do direito do trabalho. O TC não pode ser chamado a examinar tal decisão. Não se verifica nenhum dos fundamentos do recurso de constitucionalidade enunciados no artigo 280.° da CRP: nem o juiz rejeitou a aplicação de nenhuma norma por motivo de inconstitucionalidade, nem o recorrente suscitou, expressa ou implicitamente, a inconstitucionalidade de nenhuma norma (infraconstitucional, bem entendido) que tenha sido de qualquer modo aplicada na decisão recorrida.
Enfim, não pode tomar-se conhecimento do recurso nesse aspecto. 2.2 — A questão da Lei n.° 37/83
Nesta parte nada obsta ao conhecimento do recurso, pois se verificam os respectivos pressupostos. O facto de, já por duas vezes — Acórdãos n.os 11/83 e 66/84 (o primeiro em sede de fiscalização preventiva e o segundo em fiscalização sucessiva abstracta) —, o tribunal se ter abstido de considerar inconstitucional as normas dessa lei não é impeditivo do relevantamento da questão. Há, pois, que reexaminar o problema (que, aliás, não é posto em termos diferentes), apesar de, neste recurso de constitucionalidade, a referida lei só estar em causa na parte que se aplicava aos rendimentos do trabalho por conta de outrem.
O Tribunal entende que nenhum elemento novo se apre processo susceptível de provocar uma conclusão diferente que se alcançou naqueles dois acórdão. Em resumo, o Tribuna que a CRP não proíbe directamente a retroactividade dos que o princípio do Estado de direito democrático só exclui a retroactividade que se apresente de forma intolerável, o que — como se mostrou nos referidos acórdãos, cuja doutrina aqui se perfilha – não se verifica no caso da Lei n.° 37/83.
3 — Decisão
Nos termos e com os fundamentos expostos, decide-se:
Não tomar conhecimento do recurso na parte requer a declaração de inconstitucionalidade n própria decisão recorrida;
Negar provimento ao recurso quanto ao mais, não inconstitucionais as normas questionadas da Lei de 21 de Outubro.
Lisboa, 18 de Fevereiro de 1987. — Vital Moreira (vencido quanto à conclusão b) pelos motivos expostos na declaração de voto junta ao Acórdão n.° 11/'83) — Raul Mateus — Antero Alves Montei Martins da Fonseca — Armando M. Marques Guedes.