Portuguese Constitutional Court dismisses claim that pre-1976 debt collection violates freedom of association. The debt predates the Constitution, so the constitutional rule does not apply retroactively.
Legislator summary
AI generatedThe Constitutional Court granted the Public Prosecutor's appeal to enforce a debt owed to a 'Casa do Povo' association for the period of 1975. The prosecutor argued the debt collection violated the constitutional ban on forced association membership, while the defense claimed the debt title was unenforceable under current constitutional standards. The court ruled that because the debt originated before the current Constitution entered into force, the constitutional prohibition on forced association could not be applied retroactively to invalidate the debt.
Legislator headnote
AI generatedArt. 46.º n.º 3 da Constituição; Art. 282.º n.º 2 da Lei Fundamental: Constitutional provisions prohibiting forced association do not apply retroactively to debts incurred before the Constitution's entry into force.
Keywords
AI generatedCited Legislation
AI generatedCited Case Law
AI generatedRelated Decisions
AI generatedFull text
Acórdão 208/85
ACÓRDÃO N.º 208/85
Processo n.º 70/84.
2.ª Secção.
Relator: Conselheiro Nunes de Almeida.
Acordam, em conferência, no Tribunal Constitucional:
1 — O representante do Ministério Público junto do Tribunal do Trabalho de Portalegre recorreu para a Comissão Constitucional do despacho do M.mo Juiz daquele Tribunal que absolveu os herdeiros de A. da execução que lhes fora movida para o pagamento da quantia de 180$, respeitante a quotização em dívida à Casa do Povo de Alter do Chão, com fundamento na inexequibilidade do título, face ao disposto no n.º 3 do artigo 46.º da Constituição.
Tendo o processo subido indevidamente ao Tribunal da Relação de Évora, veio este a remetê-lo ao Tribunal Constitucional, onde o Ex.mo Procurador-Geral Adjunto, nas suas alegações, suscitou a questão prévia da inutilidade superveniente do recurso, face à publicação do Decreto-Lei n.º 40/82, de 11 de Janeiro. Todavia, e por cautela, sustentou que, a conhecer-se do recurso, ele merecia provimento.
A referida questão prévia foi, todavia, desatendida pelo Acórdão n.º 29/85, de 27 de Fevereiro.
Tudo visto, cumpre decidir.
2 — O despacho recorrido limitou-se a considerar que o título era inexequível, face ao disposto no n.º 3 do artigo 46.º da Constituição, sem indicar precisamente quais as normas legais ou regulamentares que entendia padecerem do vício de inconstitucionalidade.
Todavia, como o referido preceito constitucional determina que «ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação nem coagido por qualquer meio a permanecer nela», facilmente se deduz que o que no presente processo se encontra em causa são as normas constantes dos n.os 1 e 3 da base IX e do n.º 1 da base XI da Lei n.º 2144, de 25 de Maio de 1959, que obrigavam todos os produtores agrícolas a serem «sócios contribuintes» das casas do povo e a pagarem as respectivas quotas, bem como a norma constante do artigo 4.º do Decreto-Lei n.º 249/73, de 17 de Maio, que definiu o conceito de produtor agrícola, para aquele efeito.
3 — A questão da eventual inconstitucionalidade das normas em causa foi já objecto de apreciação no Tribunal Constitucional, pela sua 1.ª Secção, designadamente no Acórdão n.º 82/84 (publicado no Diário da República, 2.a série, n.º 26, de 31 de Janeiro de 1985). E anteriormente fora também apreciada pela Comissão Constitucional, nomeadamente no Parecer n.º 6/79 (Pareceres da Comissão Constitucional, 7.º vol., pp. 287 e segs.).
E, apesar de a respectiva fundamentação nem sempre ser coincidente, quer a Comissão Constitucional, quer este Tribunal, em ambos os casos, concluíram pela não inconstitucionalidade das normas impugnadas.
4 — Acontece, porém, que as quotas em dívida a que se referem os presentes autos respeitam aos meses de Janeiro a Março de 1975.
Ora, como nessa altura ainda não entrara em vigor a actual Constituição da República, a eventual inconstitucionalidade das normas em apreço nunca poderia ter qualquer reflexo sobre a legitimidade da liquidação das mencionadas quotas.
Na verdade, como decorre hoje claramente do preceituado do n.º 2 do artigo 282.º da Lei Fundamental — e já assim se devia entender face ao texto originário da Constituição —, a inconstitucionalidade resultante de infracção de norma constitucional posterior só produz efeitos desde a entrada em vigor desta última (cf., neste mesmo sentido, o Acórdão n.º 2/84, publicado no Diário da República, 2.a série, n.º 97, de 26 de Abril de 1984, e, em caso idêntico ao dos presentes autos, o Acórdão n.º 73/85, publicado no Diário da República, 2.a série, n.º 131, de 8 de Junho de 1985).
Assim sendo, não pode recusar-se a aplicação das normas impugnadas, com fundamento na sua inconstitucionalidade, em processo respeitante ao pagamento de quotas em dívida à casa do povo e referentes a período anterior ao da data da entrada em vigor da Constituição.
5— Nestes termos, concedem provimento ao recurso, revogando o despacho recorrido, o qual deverá ser reformado em conformidade com o ora decidido.
Lisboa, 13 de Novembro de 1985. — Luís Nunes de Almeida — José Magalhães Godinho — José Manuel Cardoso da Costa — Messias Bento — Mário Afonso — Mário de Brito — Armando Manuel Marques Guedes.