TC_19890257 · Tribunal Constitucional
Legislator summary
AI generated1 — No Tribunal Judicial de Viana do Castelo foram julgados e condenados, por sentença de 20 de Abril de 1988, A., e B., o primeiro como autor material de um crime de contrabando de importação, previsto e punidos pelos artigos 9.°, n.° l, e 18.° do Decreto-Lei n.° 187/83, de 13 de Maio, e de um crime de contrabando de circulação, previsto e punido pelos artigos 9.°, n.° 2 alínea c), 10.°, n.° l, alínea a), e 18.° do mesmo diploma, e o segundo como autor material de um crime de auxílio material ao contrabando, previsto e punidos pelo artigo 16.°, n.° l, do citado Decreto-Lei n.° 187/83. A mesma sentença decidiu também declarar perdidos a favor da Fazenda Nacional, nos termos dos artigos 28.° e 29.° do citado Decreto-Lei n.° 187/83, a importância proveniente da venda da mercadoria apreendida e o veículo que servia de transporte para a prática do crime, e ainda que a importância das multas seria dividida e distribuída nos termos do artigo 41.° desse diploma.
Legislator headnote
AI generatedTC_19890257 · Tribunal Constitucional: Assim, em todo e qualquer tribunal ou processo em que a questão se coloque, apenas há que aplicar tal declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral ao caso concreto (muito embora possa acontecer, em hipóteses de declaração de inconstitucionalidade parcial da normal ou de declaração de inconstitucionalidade com restrição de efeitos, que a própria declaração de inconstitucionalidade dê lugar a dúvidas e eventuais divergências acerca do seu preciso âmbito e alcance — cf. José Manuel Cardoso da Costa, A Jurisdição Constitucional em Portugal, Coimbra, 1987, p. 22, nota 28, com indicação da jurisprudência da Comissão Constitucional sobre o tema, e J. J. Gomes Canotilho e Vital Moreira, op. cit., pp. 546 e 547).
Keywords
AI generatedRelated Decisions
AI generatedFull text
ACÓRDÃO Nº 257/89[1]
Processo: n.° 264/88.
2ª Secção
Relator: Conselheiro Luís Nunes de Almeida.
Acordam na 2.a Secção do Tribunal Constitucional:
1 — No Tribunal Judicial de Viana do Castelo foram julgados e condenados, por sentença de 20 de Abril de 1988, A., e B., o primeiro como autor material de um crime de contrabando de importação, previsto e punidos pelos artigos 9.°, n.° l, e 18.° do Decreto-Lei n.° 187/83, de 13 de Maio, e de um crime de contrabando de circulação, previsto e punido pelos artigos 9.°, n.° 2 alínea c), 10.°, n.° l, alínea a), e 18.° do mesmo diploma, e o segundo como autor material de um crime de auxílio material ao contrabando, previsto e punidos pelo artigo 16.°, n.° l, do citado Decreto-Lei n.° 187/83. A mesma sentença decidiu também declarar perdidos a favor da Fazenda Nacional, nos termos dos artigos 28.° e 29.° do citado Decreto-Lei n.° 187/83, a importância proveniente da venda da mercadoria apreendida e o veículo que servia de transporte para a prática do crime, e ainda que a importância das multas seria dividida e distribuída nos termos do artigo 41.° desse diploma.
Desta sentença recorreu o Ministério Público para o Tribunal Constitucional, invocando que nela foi aplicada a norma constante do artigo 9.°, n.° 2, alínea c) do Decreto-Lei n.° 187/83, já anteriormente declarada inconstitucional, com força obrigatória geral, pelo Tribunal Constitucional. O recurso em causa seria, pois, obrigatório, por força do disposto nos artigos 70.°, n.° l, alínea f), e 72.°, n.° 3, da Lei n.° 28/82, de 15 de Novembro.
2 — Nas suas alegações, o Ex.mo Procurador-Geral Adjunto em funções no Tribunal Constitucional começa por distinguir, relativamente às normas do Decreto-Lei n.° 187/83 expressamente aplicadas pela sentença recorrida, três grupos de normas: as normas ainda não julgadas inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional [as normas constantes dos artigos 16.°, 29.°, alínea a)]; as normas já anteriormente julgadas inconstitucionais, em sede de fiscalização concreta, pelo Tribunal Constitucional [as normas constantes dos artigos 9.°, n.° l, 10.°, n.° l, alínea a), 18.° e 28.°, n.° 1], e a norma já anteriormente declarada inconstitucional, com força obrigatória geral, em sede de fiscalização abstracta sucessiva [a norma constante do artigo 9.°, n.° 2, alínea c)].
Constatando que no requerimento de interposição do recurso o Ministério Público só se refere à norma do artigo 9.°, n.° 2, alínea c), sustenta o Procurador-Geral Adjunto que, por um lado, é admissível recurso da decisão que aplique norma anteriormente declarada inconstitucional com força obrigatória geral e que, por outro lado, o recurso deve abranger não apenas a norma expressamente nomeada no requerimento de recurso, mas também todas as outras normas que o tribunal a quo aplicou e que já haviam sido anteriormente julgadas inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional.
Tudo visto, cumpre decidir.
3 — Tem razão o Ex.mo Procurador-Geral Adjunto ao alegar que a primeira questão que o presente recurso levanta é a de saber se são recorríveis as decisões dos tribunais que apliquem norma anteriormente declarada inconstitucional, com força obrigatória geral, pelo Tribunal Constitucional.
Com efeito, os artigos 280.°, n.° 5, da Constituição e 70.°, n.° l, alínea f), da Lei n.° 28/82 apenas prevêem expressamente a interposição de recurso (obrigatório para o Ministério Público) quando haja aplicação de norma já antes julgada inconstitucional (ou ilegal) pelo Tribunal Constitucional. Como a formulação utilizada nestes preceitos corresponde à utilizada a propósito da fiscalização concreta, há que averiguar se exclui ou também abrange o recurso das decisões dos tribunais que apliquem norma declarada inconstitucional com força obrigatória geral.
Sublinha a doutrina que a força obrigatória geral de que gozam as declarações de inconstitucionalidade não pode deixar de significar que a expurgação da norma do ordenamento jurídico, assim decidida pelo Tribunal Constitucional, vincula directa e automaticamente todas as entidades públicas e privadas, incluindo os restantes tribunais, sem necessidade de qualquer outro acto jurídico mediador [neste sentido, v. Luís Nunes de Almeida, A Justiça Constitucional no Quadro das Funções do Estado Vista à Luz das Espécie, Conteúdo e Efeitos das Decisões sobre a Constitucionalidade das Normas Jurídicas, Lisboa, 1987 (separata da Revista do Ministério Público, n.° 32), p. 32, José de Oliveira Ascensão, «Os acórdãos com força obrigatória geral do Tribunal Constitucional como fontes de direito», in Nos Dez Anos da Constituição, Lisboa, 1987, p. 252, e J. J. Gomes Canotilho e Vital Moreira, Constituição da República Portuguesa Anotada, vol. n, 1985, pp. 535 e 536].
Assim, em todo e qualquer tribunal ou processo em que a questão se coloque, apenas há que aplicar tal declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral ao caso concreto (muito embora possa acontecer, em hipóteses de declaração de inconstitucionalidade parcial da normal ou de declaração de inconstitucionalidade com restrição de efeitos, que a própria declaração de inconstitucionalidade dê lugar a dúvidas e eventuais divergências acerca do seu preciso âmbito e alcance — cf. José Manuel Cardoso da Costa, A Jurisdição Constitucional em Portugal, Coimbra, 1987, p. 22, nota 28, com indicação da jurisprudência da Comissão Constitucional sobre o tema, e J. J. Gomes Canotilho e Vital Moreira, op. cit., pp. 546 e 547).
No presente processo — durante o qual não fora suscitada qualquer questão de inconstitucionalidade —, estando-se perante uma declaração de inconstitucionalidade anterior à sentença recorrida e tendo a declaração de inconstitucionalidade da norma constante do artigo 9.°, n.° 2, alínea c), do Decreto-Lei n.° 187/83 sido total e sem qualquer restrição de efeitos, a aplicação, feito pela sentença recorrida, da «norma» declarada inconstitucional com força obrigatória geral só pode ter resultado de lapso.
Ora, considerando que o fundamento do recurso previsto nos artigos 280.°, n.° 5, da Constituição e 70.°, n.° l, alínea f), da Lei n.° 28/82 é a prevalência das decisões do Tribunal Constitucional em questões de inconstitucionalidade, deve entender-se que estas normas abrangem também o recurso de decisões dos tribunais que apliquem norma anteriormente declarada inconstitucional pelo Tribunal Constitucional, recurso que se destina não evidentemente a reapreciar a questão de inconstitucionalidade, mas a fazer valer aquela declaração e aplicá-la ao caso concreto.
Assim o tem entendido a doutrina (cf. J. J. Gomes Canotilho e Vital Moreira, op. cit., pp. 528 e 529, e Jorge Miranda, Manual de Direito Constitucional, t. II, Coimbra, 1983, p. 374) e assim o considerou já o Tribunal Constitucional no seu acórdão n.° 339/86 (publicado no Diário da República, 2.a série, de 18 de Março de 1987).
4 — Pretende ainda nas suas alegações o Ex.mo Procurador-Geral Adjunto que o presente recurso deve abranger não apenas a norma expressamente nomeada no requerimento de recurso, mas também, embora não nomeadas, todas as outras normas que o tribunal a, quo aplicou e já anteriormente julgadas inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional.
Estas últimas normas eram, à data da apresentação das citadas alegações, as dos artigos 9.°, n.° l, 10.°, n.° l, alínea a), 18.° e 28.°, n.° 1. Entretanto, quanto a estas normas e posteriormente a essa data, o Tribunal Constitucional, pelo seu Acórdão n.° 158/88, rectificado pelo Acórdão n.° 177/88 (ambos publicados no Diário da República, l.a série, de 29 de Julho de 1988), declarou a inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, das normas constantes do artigo 9.°, n.° l (na parte em que estabelece a punição do crime de contrabando), e do artigo 10.°, n.° l, alínea a).
Em defesa da sua posição argumenta desenvolvidamente o Ex.mo Procurador-Geral Adjunto que «a exigência da específica identificação do anterior acórdão do Tribunal Constitucional como condição da própria admissibilidade dos recursos previstos no n.° 5 do artigo 280.° da Constituição não tem suficiente base legal» e que, como regra geral — que só conhece contadas excepções, entre as quais se não incluem os recursos de inconstitucionalidade —, «o requerimento de interposição de recursos apenas tem de conter a declaração de que se recorre de determinada decisão. Nada mais». Conclui no sentido de que, «tratando-se de recurso do tipo previsto no artigo 280.°, n.° 5, da Constituição, obrigatório para o Ministério Público, o seu objecto é automaticamente integrado por todas as questões de constitucionalidades ou legalidades tratadas no juízo a quo em relação às quais o recorrente esteja munido da possibilidade legal de as trazer ao Tribunal Constitucional, devendo este órgão determinar quais elas são».
Não parece, porém, que assim deva ser.
Em função do expressamente disposto nos artigos 280.°, n.° 5, da Constituição e 70.°, n.° l, alínea f), da Lei n.° 28/82, são, desde logo e antes do mais, pressupostos desta modalidade de recurso não só que o Tribunal Constitucional, no domínio da fiscalização concreta, tenha anteriormente julgado inconstitucional essa norma, como ainda que o tribunal a quo a tenha posteriormente aplicado.
Além disso, já a 2.a Secção deste Tribunal Constitucional decidiu que, nesta modalidade de recurso, impende sobre o recorrente o ónus de identificar com precisão a decisão do Tribunal Constitucional que haja anteriormente julgado inconstitucional a norma aplicada pelo tribunal a quo (cf. Acórdão n.° 133/88, publicado no Diário da República, 2.a série, de 8 de Setembro de 1988), bem como que, em caso de inconstitucionalidade parcial, têm de coincidir a parte da norma julgada inconstitucional com a parte da norma que, apesar disso, foi aplicada ao caso dos autos (cf. Acórdão n.° 301/88, assinado em 14 de Dezembro de 1988, ainda inédito).
Mas no caso presente nem sequer é necessário averiguar da ocorrência de todos estes pressupostos.
Com efeito, dispõe expressamente o artigo 71.° da Lei n.° 28/82 que «os recursos de decisões judiciais para o Tribunal Constitucional são restritos à questão da inconstitucionalidade ou da ilegalidade suscitada». Esta norma define o âmbito do recurso e aplica-se a todas as modalidades de fiscalização concreta da inconstitucionalidade. Em função dela, o Tribunal Constitucional apenas pode conhecer a questão da inconstitucionalidade quanto às normas impugnadas, e exclusivamente nos termos em que a questão é posta no caso concreto submetido a julgamento, seja pelo recorrente, seja pelo juiz a quo, seja pelo Ministério Público (neste sentido, cf. J. J. Gomes Canotilho, Direito Constitucional, 4.a ed., Coimbra, 1986, p. 789).
Ora, durante o processo não fora suscitada qualquer questão de inconstitucionalidade e no seu requerimento de recurso para o Tribunal Constitucional o Ministério Publico refere-se exclusivamente à norma constante do artigo 9.°, n.° 2, alínea c), do Decreto-Lei n.° 187/83.
Tendo os seus poderes de cognição condicionados e limitados pelo pedido, o Tribunal Constitucional não pode, em caso algum e seja quem for o recorrente, conhecer da inconstitucionalidade de outras normas, ou seja, de normas que extravasem do pedido.
Por isso, no presente processo, o recurso é restrito à questão de inconstitucionalidade suscitada, ou seja, à da norma constante do artigo 9.°, n.° 2, alínea c), do Decreto-Lei n.° 187/83.
Questão diversa, que não cabe agora resolver, é a de saber se o tribunal a quo, ao reformar a decisão recorrida, pode ou deve, nessa ocasião, levar em conta eventuais declarações de inconstitucionalidade, com força obrigatória geral, de outras normas, quando tais declarações hajam sido publicadas depois de proferida aquela primeira decisão.
5 — Pelo Acórdão n.° 187/87 deste Tribunal Constitucional (publicado no Diário da República, l.a série, de 17 de Junho de 1987) foi declarada, «com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade orgânica do n.° 2, alínea c), do artigo 9.°, do Decreto-Lei n.° 187/83, de 13 de Maio, por violação da alínea c) do n.° l do artigo 168.° da CRP».
Nesta conformidade, apenas há que aplicar ao caso concreto a referida declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral.
6 — Em face do exposto, concede-se provimento ao recurso e ordena-se que a decisão recorrida seja reformada em conformidade com a referida declaração de inconstitucionalidade com força obrigatória geral.
Lisboa, 23 de Fevereiro de 1989.
Luís Nunes de Almeida
Mário de Brito
José Manuel Cardoso da Costa
Messias Bento
José Magalhães Godinho
Armando Manuel Marques Guedes.
[1] Publicado no Diário da. República., 2.a série, de 6 de Junho de 1989.